A Apple está sob pressão dos Estados Unidos para evitar chips de memória fabricados na China, numa altura em que a crescente procura por inteligência artificial está a apertar o mercado global destes componentes. A posição de Washington foi assumida pelo secretário do Comércio norte-americano, Howard Lutnick, depois de visitar uma instalação da Apple em Houston.
Em causa está a possibilidade de a Apple recorrer à chinesa YMTC e à CXMT para reforçar o fornecimento de memória. A decisão ganhou uma dimensão política porque as duas empresas estão abrangidas por medidas e designações das autoridades norte-americanas, colocando a tecnológica perante um dilema entre diversificar fornecedores e reduzir riscos na cadeia de abastecimento.
A corrida à IA está a apertar o mercado da memória
A memória é um dos componentes fundamentais dos equipamentos eletrónicos. A DRAM é utilizada para armazenar temporariamente os dados necessários ao funcionamento de aplicações e sistemas, enquanto a NAND é usada principalmente para armazenamento.
O problema é que a explosão da inteligência artificial está a alterar as prioridades da indústria.
Os centros de dados utilizados para treinar e executar modelos de IA precisam de grandes quantidades de memória e armazenamento. Com a procura a crescer, os fabricantes estão a direcionar mais capacidade para os segmentos associados à inteligência artificial, aumentando a pressão sobre os restantes compradores.
A Apple, que compra componentes em volumes enormes para fabricar iPhone, iPad e Mac, não está imune a esta pressão.
A empresa tem procurado aumentar as opções disponíveis para garantir fornecimento e controlar os custos. É neste contexto que surgem CXMT e YMTC como potenciais alternativas aos fornecedores tradicionais.
Apple está a avaliar memória fabricada na China
A possibilidade de a Apple utilizar chips chineses não surgiu agora.
A empresa tem sido associada à avaliação de componentes produzidos pela ChangXin Memory Technologies (CXMT) e pela Yangtze Memory Technologies (YMTC). A Reuters já tinha noticiado que a Apple estaria a testar memória da CXMT para utilização potencial em iPhone e MacBook, particularmente em equipamentos destinados ao mercado chinês.
A escassez global tornou esta alternativa mais interessante para a Apple.
A empresa não confirmou publicamente que tenha decidido utilizar estes componentes nos seus produtos. O diretor de operações da Apple, Sabih Khan, afirmou, no entanto, que a dimensão da atual escassez obriga a empresa a considerar todas as opções de fornecimento.
O CEO Tim Cook também já tinha indicado que a Apple está a avaliar diferentes possibilidades para lidar com o problema do fornecimento de memória.
Washington não quer que a Apple recorra à memória chinesa
É aqui que o problema deixa de ser apenas comercial.
Howard Lutnick afirmou que a administração norte-americana não apoia a utilização de memória chinesa pela Apple e defendeu que deve ser encontrada outra solução para a atual escassez. A posição foi transmitida depois da visita do secretário do Comércio às instalações da Apple em Houston.
A intervenção de Washington coloca a Apple perante uma escolha difícil.
Por um lado, a empresa precisa de garantir componentes suficientes e procura alternativas para enfrentar um mercado de memória pressionado pela inteligência artificial. Por outro, está a tentar aprofundar o investimento industrial nos Estados Unidos e manter uma relação próxima com a administração Trump.
A utilização de fornecedores chineses pode entrar em conflito com essa estratégia.
YMTC e CXMT estão sob escrutínio nos EUA
As duas empresas chinesas não são fornecedores politicamente neutros aos olhos de Washington.
A YMTC está incluída na Entity List do Departamento do Comércio dos Estados Unidos, o que sujeita determinadas operações envolvendo tecnologia norte-americana a restrições e licenças.
A CXMT também foi incluída pelo Departamento da Defesa norte-americano na lista de empresas chinesas identificadas pelas autoridades dos EUA como tendo ligações ao setor militar chinês.
Isto não significa, por si só, que a Apple esteja automaticamente proibida de comprar qualquer chip produzido por estas empresas.
A situação depende do tipo de componente, da tecnologia envolvida e da natureza da operação. Uma das questões centrais é precisamente saber se a Apple pretende comprar memória padronizada, disponível como componente de mercado, ou desenvolver componentes personalizados que exijam uma interação técnica mais profunda com o fornecedor.
A memória pode ser diferente de outros componentes do iPhone
Esta distinção é importante.
A Apple costuma personalizar vários componentes dos seus equipamentos, mas a memória pode exigir menos personalização do que outras peças. Segundo informações divulgadas sobre o assunto, a empresa poderá utilizar chips de memória padronizados, reduzindo a quantidade de informação técnica que teria de partilhar com os fornecedores chineses.
É precisamente esta possibilidade que torna a memória chinesa uma alternativa potencialmente mais simples do que seria a substituição de outros componentes estratégicos.
Ainda assim, a questão regulatória permanece relevante, sobretudo devido às restrições norte-americanas que envolvem as empresas chinesas.
A pressão também vem de fabricantes norte-americanos
A Apple não enfrenta apenas oposição política.
A Micron, uma das maiores fabricantes de memória dos Estados Unidos, tem pressionado contra a possibilidade de a Apple recorrer a fornecedores chineses. A empresa argumenta que a utilização de componentes chineses poderia contrariar os esforços de Washington para reforçar a produção de semicondutores nos EUA.
Também vários senadores norte-americanos já pressionaram a Apple para abandonar qualquer plano de utilizar memória fabricada pela CXMT ou pela YMTC.
O tema tornou-se, assim, uma disputa que envolve muito mais do que a Apple e os seus fornecedores.
Está em causa a estratégia norte-americana para a indústria de semicondutores, a concorrência com a China e a tentativa de reduzir a dependência de cadeias de fornecimento consideradas estratégicas.
O que isto pode significar para o preço do iPhone
Para os consumidores portugueses, a disputa pode parecer distante, mas existe um possível impacto indireto.
Se a Apple tiver menos fornecedores disponíveis para comprar memória, terá menos margem para negociar preços num mercado já pressionado pela procura associada à inteligência artificial.
Isso não significa que a pressão dos EUA provoque automaticamente aumentos de preços em Portugal. O preço final de um iPhone ou Mac depende de muitos outros fatores, incluindo custos de produção, logística, impostos, câmbio e estratégia comercial.
No entanto, restringir uma possível fonte adicional de memória significa retirar uma alternativa à Apple num momento em que os componentes estão sob forte pressão.
A própria Apple já está a lidar com o aumento dos custos relacionados com memória e armazenamento, tornando a questão particularmente importante para as próximas gerações de produtos.
Apple reforça produção nos Estados Unidos
A posição de Washington surge num momento em que a Apple está a aumentar significativamente o investimento industrial nos Estados Unidos.
A empresa anunciou um compromisso de 600 mil milhões de dólares em investimentos no país ao longo de quatro anos, incluindo iniciativas relacionadas com fabrico e fornecimento de componentes.
A Apple também está a desenvolver em Houston capacidade para produzir servidores destinados às suas operações de inteligência artificial.
Esta expansão ajuda a explicar a pressão política sobre a empresa.
Washington quer que as grandes tecnológicas norte-americanas utilizem cada vez mais fornecedores e capacidade produtiva alinhados com os objetivos industriais dos Estados Unidos. Para a Apple, porém, construir servidores nos EUA não elimina a necessidade de recorrer a uma cadeia global para componentes como memória.
Apple fica entre a escassez e a pressão política
O caso da memória chinesa coloca a Apple perante um dilema cada vez mais difícil.
A empresa precisa de garantir fornecimento suficiente para manter a produção dos seus equipamentos e, ao mesmo tempo, controlar os custos num mercado afetado pela explosão da inteligência artificial.
A China oferece uma fonte adicional de componentes, mas recorrer a fabricantes chineses aumenta o risco político e regulatório nos Estados Unidos.
Do outro lado, limitar as opções de fornecimento pode obrigar a Apple a depender ainda mais de fabricantes tradicionais, como Samsung, SK hynix e Micron, num momento em que toda a indústria enfrenta uma procura elevada.
Por agora, Washington deixou claro que prefere que a Apple encontre outra solução. A empresa, contudo, continua a ter de resolver o problema real da escassez de memória.
A decisão final poderá revelar até que ponto a Apple está disposta a sacrificar uma alternativa de fornecimento potencialmente mais barata para evitar novos conflitos com a administração norte-americana e reduzir o risco associado à sua cadeia de abastecimento.
Com informações adicionais de 9to5mac.com.